sábado, 10 de maio de 2008

Velhice

A morte é o nosso futuro. Se possível, também a velhice o é. (...)
Quando se é muito novo, a velhice é a dos outros. Quando se está a meio do caminho, a velhice começa a ser nossa e tudo ousamos para nos desviarmos dela e dos seus perigos. Quando se é velho, o espelho foge-nos da mão e não quer reflectir o que vê. Alguns velhos são loucos e sagazes. Por isso, a velhice é também a fonte onde se alimenta alguma da mais risível comédia humana.

Simone de Beauvoir, num sombrio livro sobre a Velhice, fala de um peso insuportável e afirma que ela é uma triste paródia da vida. Cícero, em De Senectude, aconselha, para a viver, uma mistura de apego e de renúncia à vida.La Rochefoucault lembra que os velhos gostam de dar bons conselhos para esconder que já não estão em estado de dar bons exemplos. E Vergílio Ferreira falava da velhice como do lugar de um grande confronto do homem consigo - com a memória, a liberdade, a finitude. (...)

Tenho amigos que para quem a velhice tem sido o encontro com um novo Eu: mais lento, mas mais sábio; mais prudente, mas mais atento. Outros, porém, enrolam os pés nela como numa passadeira rota: tropeçam, caem, partem o rosto. Como noutras situações, noutros riscos, noutros desafios,há quem saiba e quem não saiba fazer-lhe frente. (...)Sem os vermos, estamos cercados de idosos de sorriso triste e mãos frias a acusarem-nos. A sociedade do êxito e da competição trocou a experiência pela velocidade, a sabedoria pela pela informação, a visão pela imagem - divinizou a juventude e expulsou a velhice para os lares que cheiram a urina e a morte. (....)

Mas houve um mundo em que a velhice era a idade da atenção e da escuta. No nosso, é o tempo do esquecimento e do vazio. Agora, fazemos da longevidade a nossa mais apurada forma de crueldade. Quanto mais ela aumenta, maiores são a indiferença e o desprezo pelos que duram. Todos os dias sabemos histórias de crueldade e abandono que aterrorizam, mas calamos. Como sempre, há todas as explicações para elas. Diz-se: "A culpa é da vida. As pessoas têm de trabalhar e não podem tomar conta dos velhos." A culpa é da vida! E é de todos nós, que, diariamente, fazemos da vida o que ela é.

José Manuel dos Santos, Actual, Expresso, 10/05/08

Nota - Gostei tanto desta crónica que não resisti a fazer a transcrição de alguns excertos. Espero que o Autor não se importe!

De pequenino...




Lembrei-me de um velho provérbio "De pequenino se torce o pepino..."que tem sido muito glosado em educação. Veio isto a propósito de uma Avó babada que, no último fim de semana, me contou a última estória de uma das suas netas.

A Carminho, de quatro anos, é uma criança bonita e inteligente. A condição de mais velha (é a primeira de 3 irmãs) fez dela uma menina muito desenvolvida para a idade, atenta a tudo e sempre pronta a ajudar. Passou o último fim de semana em casa dos bisavós e aí encontrou a madrinha da avó, senhora com mais de 90 anos, que tem muita dificuldade em movimentar-se. A dada altura, a Carminho perguntou: " A Madrinha quer fazer chic-chi?". Face à recusa agradecida da madrinha, logo avisou: "Quando quiser, diga!"

A senhora registou a atenção e logo tratou de contar a gracinha! Exemplo para nós, adultos, mas que, por certo, corresponde ao exemplo dado lá em casa!

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Figo



Da universalidade do futebol já ninguém duvida. Para isso muito contribuíu a globalização informativa que tudo sabe e publica da vida desportiva e pessoal destes heróis.
Não há fronteiras para a popularidade dos jogadores, treinadores e até clubes. Em Portugal, os mais velhos lembram, entre outras glórias, Pelé e Eusébio, nomes que os novos se habituaram também a venerar. Hoje, os heróis portugueses são outros e todos, sem excepção, reconhecem Figo e Cristiano.
Embora não entenda muito de futebol, habituei-me a olhar estes fenómenos com interesse, acompanhando o percurso dos "nossos" pelo mundo.
Recordo sempre Xanana Gusmão, preso na Indonésia, usando um boné do Benfica e, como todos os portugueses, comovi-me com Marcinus, o menino indonésio perdido depois do tsunami, que vestia a camisola da Selecção! Hoje fixei-me no nome de Figo, inscrito na camisola de um menino de escola, durante a visita a uma reserva animal na Austrália...
Observação casual nesta sexta-feira, após o almoço, ao ver na TV5 um programa muito interessante sobre a fauna da Austrália. Aqui fica o registo!

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Campos pintados


Foi agradável a viagem de regresso a casa. Depois da incerteza do aparece e esconde, a Primavera assentou e deixa ver o seu rosto. Os campos associaram-se à moda deste Inverno-Verão, pintando-se de amarelo e roxo...

Que pintor poderia apreciar igualmente esta paisagem? Pensando bem, acabei por escolher Van Gogh... que nunca desdenhou tal colorido!

Myanmar


Birmânia, hoje Myanmar, situa-se no sul da Ásia. Longe da Europa em tempos passados (mas lá chegaram os portugueses no século XVI ), mas quando o longe "se fez perto", continua distante.
Myanmar está na ordem do dia. Uma violenta tempestade matou e destruíu o país, deixando o povo à míngua de tudo: água, alimento, casa e outros bens essenciais. Em tempo do imediatismo informativo, estranha-se a não existência de fotos da devastação. A edição do Diário de Notícias que trata o assunto, deixa-nos a reflectir sobre o poder da imagem.
Pela imagem sentimos emoção e é pela imagem (uma só vale mais do que cem palavras) que agimos. Esse o temor dos governantes, daí proibirem o olhar de estranhos...
Deste cenário de destruição, fica apenas o registo, porventura de uma avaliação em baixa: 22.000 mortos, mais de 40.000 desaparecidos (mero eufemismo de mortos?!), mais de 1.000.000 de desalojados. Números assustadores e, mais ainda, se transpostos para a dimensão de Portugal.
Seria qualquer coisa correspondente à morte da população total de alguns concelhos, contando-se como desalojados cerca de 1/10 da população portuguesa!

Dá para pensar a realidade dos números! E nós, não dispondo de imagens da catástrofe, esquecemos o sofrimento e a fome dos outros!


Blog, porquê?

Aderi com certa reserva à Blogsfera, pensando que muito raramente iria utilizar este espaço.Afinal, os assuntos fervilham e só a falta de tempo impede a escrita diária.

Aqui não existe aquele nervoso que sempre me assaltava ao falar em público. Não seca a garganta, nem tremem as mãos, porque a audiência está invisível na Net. Tudo acontece com naturalidade: a ponta dos dedos no teclado seguindo ao ritmo da inspiração do momento...
Bendito este meio de comunicação que mais parece uma nova forma de catarse. Ai! se os psiquiatras sabem disto!...

terça-feira, 6 de maio de 2008

Gosto de Malhoa



"Alguém que Deus já lá tem...", assim se canta no fado Malhoa...
Alguém que deixou o seu nome associado à vida boémia e fadista de Lisboa nos princípios do século XX: José Malhoa.

Cenas naturalistas de taberna com fado e bebedeira, mas o génio do Pintor não se esgota aí. A imagem remete-nos para outras experiências e temáticas...

Aos que me lêem, deixo o desafio, por que não uma visita ao Museu do Chiado ou às Caldas da Rainha, onde Malhoa deixou a marca do seu nome? Sigam o "conselho" e depois digam se valeu a pena!