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quinta-feira, 10 de julho de 2008

Cimeira de Hokkaido



"Bem prega Frei Tomás...." com este ditado poderia começar a notícia acerca da Cimeira do G 8.
Objectivos importantes, mas nada feito se não houver vontade e coragem dos políticos dos "grandes Estados".
No entanto, o que faltou em eficácia nos Acordos, sobrou em gastos de luxo e ostentação. Foi a Cimeira do escândalo como noticiam as agências de informação.
Desse estado de coisas, fica uma nota retirada do Google. E quem quiser pesquisar, pode ainda entrar nos pormenores desse lauto jantar de 24 pratos, dos vinhos e dos cozinheiros requisitados para a confecção...
Mais palavras para quê? ....



Refeição custou 300 euros por cabeça


A polémica instalou-se: na cimeira que reuniu os oito líderes dos países mais industrizados do mundo (G8) para discutirem o tema da fome, foi servido um jantar de luxo.
De acordo com o «Diário de Notícias», reunidos sob o tema dos elevados preços dos alimentos, bem como a sua escassez em vários pontos do Globo, os altos responsáveis não se inibiram de experimentar 24 pratos, incluindo entradas e sobremesas, num jantar que terá custado 300 euros por pessoa.
Entre as especialidades servidas estiveram trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos e caviar.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Timor-Leste


Continuo a pensar que uma afeição perfeita é a que resulta de um processo gradual. Aconteceu assim a minha relação com Timor.

Pouco sabia da Ilha de "sândalo perfumado" e de especiarias finas até ao dia em que conheci um velho padre timorense. Alto e sorridente, o Padre Ximenes frequentava as aulas do curso de História e falava-nos muito da sua terra. Relatos da ocupação japonesa em 1945, da simplicidade do povo e da beleza do pôr do Sol. Então, sob o espectro da guerra colonial, os rapazes da minha geração suspiravam por uma comissão militar em Timor, onde reinava a paz...

Ninguém desconhece os acontecimentos dos últimos trinta anos. De novo, a ocupação, desta vez, pelos indonésios (1975), seguida da opressão e dos anos da resistência que culminaram com o massacre no Cemitério de Santa Cruz. Este despertou a consciência da comunidade internacional, traduzida não só na atribuição do Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e Ramos Horta, mas também na decisão do referendo votado pela ONU.

Embora sob pressão dos militares indonésios, os timorenses acorreram maciçamente à votação, refugiando-se, depois na montanha. Em Portugal, todos nós, vivemos intensamente esses difíceis dias dos timorenses. E foi com emoção que içámos panos brancos nas janelas, parámos um minuto pela paz e recebemos, em apoteose, D. Ximenes Belo em Lisboa.

A alegria pela libertação de Xanana Gusmão e pela vitória do "sim" à independência faziam acreditar que era possível a reconciliação e a paz. Puro engano. Os homens continuam a errar e Timor tem a fatalidade de possuir petróleo!

Por isso, o mal estar social e político persistem e os movimentos de contestação surgem. A propósito, transcrevo uma nota da Agência Lusa. Entretanto, já ocorreram graves incidentes no passado dia 8 de Julho, desejamos que não se repitam.

12-06-2008 10:54:38

Estudantes do Timor protestam contra regalias de deputados

Dili, 11 jun (Lusa) - Estudantes universitários se manifestaram nesta quinta-feira, pelo segundo dia, em Dili, capital do Timor Leste, contra a aquisição de 65 carros para o Parlamento, considerada mais uma regalia dos deputados.
A proposta de compra dos veículos para os 65 deputados foi anunciada há uma semana pelo presidente do Parlamento timorense, Fernando La Sama de Araújo.Os carros têm preço unitário de US$ 33 mil, enquanto a maior parte da população do Timor Leste vive com US$ 1 por dia.
Protestos semelhantes já tinham acontecido em 2007, quando os deputados aprovaram sua própria pensão vitalícia.Uma lei de Janeiro de 2007 estabeleceu uma “pensão mensal vitalícia igual a 100% do vencimento desde que [os deputados] tenham exercido o cargo, em efectividade de funções, durante 42 meses, consecutivos ou interpolados”.
Em caso de morte do beneficiário da pensão, o valor integral é transmitido ao cônjuge, aos filhos menores de idade ou aos ascendentes sob responsabilidade do parlamentar.No artigo intitulado "outras regalias", a mesma lei estabelece o “direito a assistência médica dentro, e, sempre que for considerada necessária, fora do país”.
Os deputados têm também "o direito a importar um veículo para uso pessoal, sem pagamento de taxas aduaneiras e outras imposições fiscais sobre as importações”. Podem ainda “importar todo o material necessário para a construção de uma residência privada” nas mesmas condições de isenção fiscal e aduaneira.
Os membros do Parlamento beneficiam de "direito a livre-trânsito e a passaporte diplomático", assim como cônjuges e descendentes.A estes benefícios, somam-se os salários normais dos deputados, que são o triplo do que recebem os funcionários públicos nos escalões médios e superiores do país.
O vencimento-base de um deputado timorense é de US$ 450, mais US$ 300 para gastos com telefone e US$ 450 para despesas de alojamento. Os deputados têm direito ainda a diferentes auxílios para transporte.
O presidente do Parlamento do Timor Leste recebe US$ 1.000 de salário, o vice-presidente US$ 750 e a secretária de mesa US$ 600, além dos extras para telefone e alojamento.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Incêndio na Avenida

Incêndio na Avenida. Claro, Avenida da Liberdade: lugar emblemático de Lisboa, junto à Calçada da Glória, do elevador do mesmo nome.

As imagens que a Televisão passou, em directo, arrepiavam e tiraram-me o sono. Ao menos, salvaram-se as pessoas, mas os moradores e hóspedes das pensões não ganharam para o susto.
O fogo consumiu mais um edifício secular de Lisboa e outro ficou irremediavelmente afectado, perdendo-se bens de valor incálculável. Pode não ser uma fortuna, mas a estima pessoal não tem preço...

Ontem, recordei outros grandes incêndios: Igreja de S. Domingos, Teatro de D. Maria e, em Agosto de 1988, o Chiado. Este último estava, de certeza, na cabeça dos jornalistas e das pessoas que para aí se deslocaram, assistindo impotentes, ao longo combate dos bombeiros.
Conheço relativamente bem aquela zona, subi muitas e muitas o elevador da Glória e gostava de visitar uma loja existente nesse lado da Avenida. Tratava-se da Loja da Louça de Sacavém. Dava-me prazer entrar, ainda que fosse uma fraca compradora. E estava sempre actualizada com as "últimas" da produção dessa Fábrica do final do século XIX que já não existe...

Tantas voltas dá o Mundo. E também a Avenida mudou e continua a mudar. De Passeio Público a Avenida que, depois da República, ficaria para sempre, Avenida da Liberdade.
Mudam os prédios, mudam os proprietários e muitas lojas de marcas estrangeiras já aí estão implantadas. É assim a Avenida de hoje que, em breve, irá contar certamente com um novo prédio no número 23, possivelmente de uma qualquer empresa espanhola...
Não tenho nada contra. É a vida e não há nada a fazer!...

Complexo de Atenas


Não se trata de um complexo arquitectónico ou escultórico. É uma estratégia de compensação para recusar o inegável, no caso a superioridade técnica e material dos americanos.

Na inviabilidade de criar um modelo de estilo de vida capaz de disputar a hegemonia americana, o resto do mundo contesta. Daí geram-se atitudes e comportamentos nacionalistas que, por vezes, desembocam em expressões ou movimentos radicais. Todos sabemos o sofrimento adveniente desses "choques de culturas" que os ideólogos explicam...
Sem esses extremos, mas sempre críticos do estilo de vida americano, os franceses assumindo a sua superioridade na defesa da "liberdade, igualdade e fraternidade", manifestam um comportamento que passou a ser designado "complexo de Atenas". Tal significa a identificação com os "valores atenienses", que os cidadãos da Grécia antiga contrapunham aos dos romanos. Era a velha máxima de que "os vencedores foram dominados culturalmente, acabando por assimilar o legado dos vencidos". Uns têm a força, o poder e a riqueza, os outros o requinte, os valores e a cultura. Para os primeiros, interessa, acima de tudo, o futuro, enquanto os outros prezam a herança do passado.
Esquecendo a velha questão da decadência da Europa, a qual, desde há décadas, faz correr tanta tinta, lembro um discurso do Presidente Bush, afrontando as críticas dos políticos europeus. Referia mesmo a expressão "velha Europa" como receosa ( e fraca, digo eu)... Ora, a isso, apetece dizer bem alto, embora sem desdenhar o pragmatismo americano, toda a veemência da nossa recusa ao "modelo global" preconizado pelos políticos dos E.U.A.!

sábado, 5 de julho de 2008

Saint Fermin


Começam as festas de Saint Fermin em Pamplona.
Durante mais de uma semana a loucura apodera-se da cidade que recebe turistas de toda a parte do Mundo.
Todas as manhãs, pelas 8 horas, um foguete avisa a largada de touros (encierro). E depois dos corredores cantarem, por três vezes, a protecção do Santo, soltam-se os touros que correm pelas ruas em direcção à praça. Desvario total nessa corrida em que os corredores experimentados se misturam com os novatos.
Das varandas apinhadas ( e pagas a bom preço), todos gritam e incitam os corredores e os touros. Muitas quedas, atropelos e pisadelas e raro é o dia em que não acontece um acidente mais ou menos grave.
Os aficionados conhecem já os habituais moços-corredores que, desde há anos, repetem todos os dias de encierro. Este deve ser rápido e sem feridos... Mas nem sempre é assim. O poder do vinho, da cerveja e outras bebidas dá euforia, mas retira força para fugir!
A alegria da festa reside nas peripécias do "corre, escorrega e cai" desses corredores que provocam o touro com uma palmada ou um puxão de rabo. À volta da festa taurina, muita brincadeira e folia, é assim durante uma semana em Pamplona!...
O Saint Fermin, imortalizado por Hemingway em Fiesta, perdeu já um pouco da tradição. Agora, a maioria dos corredores já não veste de branco, faixa vermelha e lenço, um rolo de jornal ou de cartão, objecto essencial para enxotar o touro! Já o número de particpantes aumentou exponencialmente...
Quem quiser, pode ver o encierro, em directo, na TVE! É uma experiência...

Nota: São Firmino foi o primeiro bispo de Amiens e sofreu o martírio no século IV. Era natural de Pamplona, Espanha, e filho de Firmo. Foi convertido por São Saturnino, e teve como mestre o sacerdote Honesto. Segundo a tradição, São Firmino tornou-se bispo aos 24 anos. A sua pregação alcançou a França, a Aquitânia, a Alvérnia, Agenais, Amiens. Como a sua pregação fosse coroada de numerosas conversões, os governantes tramaram secretamente sua morte. Os factos principais de sua vida estão narrados na fachada da Catedral de Amiens.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

American life

Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie dispensam apresentações. Mas nunca é de mais falar daquela que é a família mais engraçada e politicamente incorrecta do mundo. Tanto mais que estão de parabéns. A família Simpsons comemorou ontem os seus 20 anos de vida, que é como quem diz de carreira.
Foi no dia 19 de Abril de 1987 que Os Simpsons foram emitidos pela primeira vez na televisão norte-americana, à data inseridos num show de Tracey Ullman. O sucesso foi tanto que dois anos depois ganharam a sua independência e tiveram honras de se estrear com um programa só seu (episódios de trinta minutos), que é hoje o desenho animado com maior longevidade nos EUA, com direito a um lugar no Guinness, o livro de recordes.Criada por Matt Groening e James L. Brooks, a família Simpsons tem sido um caso de sucesso. O seu humor subversivo e as sátiras à classe média e ao modo de vida americano, colocando "o dedo nas feridas", e as suas críticas a outros países, têm granjeado fãs um pouco por todo o mundo. O jeito preguiçoso de Holmer, o pai, o lado de mãe-galinha de Marge, o carácter traquinas de Bart, o primogénito, o ar certinho e responsável de Lisa, a filha do meio, e as primeiras palavras de Maggie têm encantado miúdos e graúdos e tornaram-se, até, numa instituição cultural.

Com honras de presença na calçada da fama de Hollywood, ao lado de estrelas famosas de carne e osso. Caso inédito para quem é um boneco de desenho animado.Chama-se Springfield a cidade onde vive a família Simpsons. Não foi ao acaso a escolha do nome. Springfield é um nome comum nos EUA. Qualquer dos 51 estados tem a sua Springfield. E essa foi a forma encontrado pelos autores para garantir que a crítica feita nos desenhos animados fosse ainda mais abrangente.

Mas, o povo americano não é o único alvo das sátiras de Groening e Brooks. O resto do mundo não lhes escapa. E a polémica, por vezes, acaba por surgir, sobretudo junto dos sectores mais conservadores. Um dos casos que mais tinta fez correr envolveu o Brasil, que num dos episódios foi retratado com macacos andando pelas ruas e muita violência. Os brasileiros não gostaram. No total, desde a estreia, Os Simpsons já contam com perto de 400 episódios e é a série animada com maior número de participações especais. Emitida pelo canal aberto americano FOX, a série já ganhou vários prémios, incluindo 21 Emmys.


Dia 4 de Julho, dia nacional da América, lembrei-me dos Simpsons, a série que já fez 20 anos...
Por hoje, fica a sátira, outro dia hei-de falar a sério do "estilo de vida americano"....


O pão de cada dia



Notícia de hoje, baixa do consumo de pão em 20%.
Seria bom se isto correspondesse a uma alteração dos hábitos alimentares dos portugueses que estão ficando muito gordinhos.
Mas nada disto, apenas mais um sinal dos tempos de crise.
E, por arrastamento, as padarias encerram portas...

Contudo, a crise não é igual para todos. Noticia-se também hoje que o Tribunal de Contas detectou um prejuízo de 75 milhões de euros nas Águas de Portugal, o que não impediu a empresa de gastar 5 milhões em prémios e na renovação da frota-automóvel!...
Pasme-se! Então, os prémios não significam bom desempenho, produtividade e lucros? Dantes era assim, mas já nada é como dantes!..

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ingrid Betancourt


















A notícia chegou inesperada: Ingrid Betancourt regressou do "cativeiro", acompanhada por 14 companheiros ( 3 americanos e 11 colombianos). O milagre da libertação resultou de uma "operação militar perfeita", como ela afirmou.
Muitos meses separam estes registos que valem pelo contraste entre dois momentos: a depressão em Outubro e a alegria da liberdade, ontem!

Quase podemos dizer que o rosto calmo de Ingrid, coincidindo com as palavras que proferiu à chegada, significam um "outro milagre", o da força de ânimo. Momentos houve em que a esperança quase a abandonou, mas logo recuperava o sonho de um dia....
O mundo sentiu o drama dos reféns e uniu-se, desde as altas esferas do poder político ao povo anónimo. Os ecos desse movimento chegavam ao interior da floresta da Colômbia. Todos os dias os familiares mais queridos falavam, via rádio, e Ingrid soube encontrar nessas palavras o sentido da esperança... Mas isso só foi possível com a ajuda da comunicação social que nunca desistiu de colaborar... e ontem ela também não esqueceu o agradecimento aos jornalistas!

Ingrid é uma mulher de fé, rezou sempre, confiando na providência divina... Tantas razões para explicar a grandeza da Mulher que, sem azedume, lembrou os outros companheiros que continuam reféns das FARC. É desta qualidade que são feitos os grandes políticos e, tenho quase a certeza, que ela não vai desistir da luta pela liberdade...na Colômbia, no Zimbaué, na Birmânia ou noutro qualquer lugar!
É isso que esperamos da sua coragem, persistência e capacidade de perdoar!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Uncle Sam

Tio Sam é uma personificação nacional dos Estados Unidos da América.
Ele é geralmente representado como um senhor de fisionomia séria com cabelos brancos e barbicha. Há fontes que vêem uma semelhança do rosto de Tio Sam com o do presidente
Andrew Jackson, outras com o do presidente Abraham Lincoln. O Tio Sam é representado vestido com as cores e elementos da bandeira norte-americana - por exemplo, uma cartola com listras vermelhas e brancas e estrelas brancas num fundo azul, e calças vermelhas e azuis listradas.

Do Tio Sam fica a imagem e a explicação do símbolo. Personificação da seriedade que, porventura, associamos à ideia de democracia e direitos humanos. Essa parece ser a mensagem que a grande América transmite ao resto do Planeta!
Pois, hoje, a terra do Tio Sam é notícia pelas piores razões. As câmaras de vigilância de um hospital registaram imagens chocantes, inimagináveis até em países ditos subdesenvolvidos....
Sala de espera, uma mulher cai no chão inanimada. E aí permanece estendida, enquanto alguns seguranças espreitam, observam o quadro e nada fazem. Até um médico teve a mesma reacção. Igualmente, um utente lança uma olhadela e continua sentado, impávido e sereno. E a mulher, paralisada e sem um gesto, continua no chão. Só passada uma hora, alguém aparece para confirmar o óbito!...
Tanta indiferença face ao sofrimento humano chocou a opinião pública dos E.UA. E parece que os responsáveis do Hospital já foram todos demitidos! Ao menos, valha-nos isso!
Sabemos que não se deve generalizar. Daí a indignação dos americanos decentes e solidários. Mas façam qualquer coisa para mudar este estado de coisas! Por que não uma campanha de sensibilização à cidadania e solidariedade?

José Saramago



Nem sempre os amigos coincidem nos gostos e daí que, de vez em quando, parta só à descoberta de um museu ou de uma exposição.

E assim aconteceu ontem: Palácio da Ajuda, "José Saramago - a consistência dos sonhos", uma exposição tecnica e esteticamente bem conseguida. Mostra de um vasto campo documental que, a par e passo, segue o percurso de Saramago, desde a Azinhaga-natal, "terra plana e lisa como a palma da mão", até aos lugares de afirmação e consagração do escritor.

O suporte audio-visual facilita o conhecimento do homem e do escritor. Imagens que sobrepõem a passagem dos dias de Saramago e do passado recente de Portugal...e, naturalmente, também de todos nós! Agradou-me, pois, essa retrospectiva que, sendo já "história", serviu para lembrar coisas, pessoas e lugares...
Devo confessar que, embora não seja uma admiradora incondicional de Saramago, gosto muito de algumas das suas obras. Distingo, de modo particular, o Memorial do Convento (a obra que o tornou conhecido do grande público) que, através de um tema original, deu um sugestivo retrato da época de D. João V...
Servi-me do Memorial para animar as aulas de História, não podendo imaginar como esses trechos foram determinantes para o futuro profissional de uma jovem aluna, hoje brilhante investigadora na área das Ciências Sociais. Influência publicamente assumida, como confessa na introdução da Tese de Doutoramento...

Fechando parentisis, regresso à exposição. Registos do trabalho árduo do escritor, objectos do seu quotidiano, imagens da vida familiar e também momentos de consagração. A grandeza do cerimonial da entrega do Nobel em 1998 e aquela parede-montra de todos os títulos publicados e respectivas traduções!...

Tantos reflexos da obra e do homem, desde a Azinhaga a Lanzarote.
Entre todos, retive um pormenor, uma das suas últimas entrevistas. Falava-se da morte e José Saramago recordava a avó. Mulher simples que, aos 90 anos, afirmava: "O mundo é tão bonito!" E por isso, dizia ter muita pena de morrer!... Interpretando as palavras da velha senhora, explicava que "essa pena" resultava do facto de "não estar" para presenciar o futuro...
Partindo da sabedoria da velha camponesa, fica esclarecido o ciclo da vida que, afinal, parece resumir-se a dois tempos verbais: o presente de estar (enquanto se vive), e o passado do mesmo verbo (quando chega a morte).
Sem dúvida, é por esse gosto de "ver o mundo" (pessoas e coisas) que o homem resiste à doença, agarrando os frágeis fios que o ligam ao presente. É sempre a busca para prolongar horas aos dias de vida... Saramago conhece o segredo! Que viva por muitos anos!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Festas de S. João


"O Santo António já se acabou..." e eis que chegámos ao S. João.
Noite de arraial, um pouco por todo o país. Muita folia, especialmente no Porto. Mas já o tempo fez cara feia e a festa perdeu a graça. Partida de S.Pedro!.....

Nunca entendi muito bem como se coaduna a figura austera de S. João Baptista com a folia destas festas! O Santo, coberto com peles, sofrendo a fome e a sede no deserto...a penitência em constraste com os folguedos populares com martelinhos, dança, comida e algum alcool...
Existe, todavia, uma outra representação do Santo, a de menino com ar doce. Era esta a imagem que via emoldurada nas feiras e que, mais tarde, identifiquei como cópia do S. João de Murillo...

E enquanto lá fora, segue o arraial com a música bem alto, "apita o comboio" da conhecida gravação, fiquei para aqui divagando!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Arrumador de automóveis


Arrumadores, não gosto de arrumadores... e toda a gente sabe porquê! Pedincham uma moedinha por um trabalho que, na maior parte das vezes, não existe. Resmungam se acham reduzida a gorgeta e, se nada lhe dermos, atiram com uma ameaça!...

Pois é, concordo em absoluto! Mas, às vezes, tornam-se providenciais. No domingo achei um destes, na Rua de D. Pedro V, ao procurar um lugar para estacionar. E, de imediato, o meu arrumador apontou um espaço amplo e fresquinho, como convém nestes dias de Verão!

Atravessando a rua, reparei num outro lugar e, logo prontamente, ele explicou: "Pus aqui um caixote , mas este (lugar) é ao Sol!" E assim, fiquei rendida a estes "novos arrumadores" que sabem muito do seu ofício e desenvolvem estratégias perfeitas para viver...
São vidas que, individualmente, não podemos modificar!

Tosquiador


O rótulo "vias de extinção" aplica-se não só às espécies, mas também aos ofícios tradicionais.
No Global, publicação de distribuição gratuita, conheci um tosquiador. Um dos poucos que ainda existe na região da Guarda. Conta 77 anos de vida, passada entre vários ramos de actividade: pastor, lavrador, sapateiro e emigrante em França.

Actualmente, trabalha só para os amigos. Fala com orgulho do "mérito das suas tesouras" com que retira a lã das ovelhas; uma tarefa que dura de 30 minutos a uma hora, tudo depende do tipo de tosquia. E deleita-se o Ti Zé na perfeição das "ramagens", isto é, nos desenhos pormenorizados com que enfeita o dorso das suas ovelhas.
Embora, apreciadora das coisas bonitas, apetece-me dizer ao velho tosquiador que é tempo de parar com tais enfeites. Já reparou no sofrimento dos pobres animais, atados pelas quatro patas, enquanto esboça e corta as "suas ramagens"?
Da tosquia de outrora, guardo ainda a imagem dessas ovelhas que, sem um ai, olhavam para nós! Por isso, aconselho a simplificação, reduzindo esse trabalho ao essencial!
Nem sempre o progresso é mau!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Superlativos




Quem não conhece pessoas exageradas?
De todas as idades, de todas as condições sociais e de todos os tempos... Falam como são, um tanto nervosas atiram tudo para a "máxima expressão". Para elas não existe meio-termo, tudo ou nada!
A Mariana diz, toda a hora, espectacular e nesse rótulo cabem pessoas e coisas. Acho-lhe graça e acompanho as descrições, ouvindo e rindo... Ela não percebe e ainda bem!
Lembrei-me disto, porque estou a ler uma pequena obra-prima de Machado de Assis, um dos grandes autores brasileiros (juro que não exagero!), exímio na descrição de personagens. Retratos que nos fazem sorrir, onde ressalta de uma fina ironia o barroquismo das suas expressões e modo de ser. Transcrevo uma dessas passagens que o Autor apelidou Amaríssimo, mas que bem podia ser Superlativo...

José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não os havendo, servia a prolongar as frase. Levantou-se para ir buscar o gamão, que estava no interior da casa. Cosi-me muito à parede, e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Foi um dos últimos a usar que usaram presilhas no Rio de Janeiro, e talvez no mundo. (...) Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquele vagaroso arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!

Machado de Assis, Dom Casmurro

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Santo António

Atrevo-me a dizer que Santo António é, entre todos os santos, o mais popular. Chamemos-lhe de Lisboa ou de Pádua, tanto faz, os seus devotos estão em toda a parte...
A fama de casamenteiro colou-se-lhe para sempre; a ele recorre todo o que pretende arranjar noivo ou resolver problemas da vida conjugal. Mas os dotes do Santo vão muito para além disso, já que atende todas as causas difíceis.
Por mim, invoco-o muitas vezes. Sempre que calha perder alguma coisa, rezo ao Santo e ele não tarda a responder. Devoção antiga que conhecia à minha Avó, mas que nunca levei a sério até do dia em que visitei Pádua!

Lisboa festeja o 13 de Junho, promovendo os chamados "Casamentos de Santo António", uma tradição que já leva cinquenta anos. Ontem, vi na RTP um desses casais que festeja as bodas de ouro. E foi enternecedor recordar esses tempos de namoro e as prendas oferecidas, em 1958, pelos comerciantes da cidade.
À providência do Santo ficava (e fica) a dever-se o dote que bem necessário é....

segunda-feira, 2 de junho de 2008

"Futebol fora da realidade..."


Primeira observação, gosto de futebol. No entanto. o espaço noticioso dado à Selecção parece desmedido e, talvez, mesmo contraproducente para o resultado que se deseja! Ainda nem começou o Campeonato e a histeria futebolística avança a todo o vapor, esquecendo outros problemas...
Delicio-me com os dribles do mais famoso futebolista da actualidade. Adoro vê-lo jogar e tenho uma enorme simpatia por Cristiano Ronaldo que, há dias, confessava não saber quanto dinheiro tinha!...

Ora, a propósito deste imenso e inebriante poder económico do futebol, Luís de Freitas Lobo, jornalista desportivo, escrevia, no Expresso de sábado, uma crónica que intitulou: Mundos Paralelos. Transcrevo aqui.

Um vendedor de flores, um barbeiro, uma mulher pequena, um homem gordo, um jogador de basquetebol, um cantor de fado. Gosto de olhar o mundo como uma babilónia de personagens. Todas estas podem cruzar-se connosco a qualquer hora do dia. O futebol também é assim na sua democraticidade atlética. Jogam todos. Altos, baixos, lentos, magros ou um pouco gorditos. Mas as babilónias não são perfeitas. Os títulos das primeiras páginas de jornais explicam bem isso. E assustam. Um exemplo da semana: O Real Madrid oferece 82 mil euros por dia a Cristiano Ronaldo. Um título que coexiste ao lado de outro. A mãe de Tânia, a criança atropelada no Porto, vive com 550 euros por mês e não tem dinheiro para comprar os iogurtes indispensáveis na alimentação e evitar nova nova operação da menina. São dois "mundos" que coexistem no mesmo mundo. Pacificamente.
É perturbador. É como cair na "twilight zone". Claro que nem o futebol, nem Ronaldo muito menos, têm culpa desta babilónia absurda em que vivemos. Este futebol vive fora da realidade. Por isso, este simples contacto com ele causa alucinação. Como as cartas humanas que se movem loucamente em "Alice no País das Maravilhas" e o coelho que a quer levar para um poço. Não há forma de fugir deste choque de mundos. Esqueçam a racionalidade. Aqui é apenas o caos.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Abrir um livro

Observe-se uma grande livraria ou visite-se a Feira do Livro. Frente a um expositor, pessoas de todas as idades e condições socio-culturais ficam alheadas de tudo, sentindo o prazer de abrir um livro. Passam folhas como quem saltita, aqui e ali, respigam um nome, uma palavra! Por curiosidade, gosto ou obrigação não resistem a esta "febre" de um primeiro contacto...

Mas houve tempo em que a abordagem à leitura se fazia de forma diferente, tal como diferente era a apresentação de um livro. Excluindo as belas encadernações dos clássicos e outras obras de referência, a maioria primava pela simplicidade. Talvez fosse a escassez de recursos técnicos e as dificuldades económicas a imporem sobriedade. Design discreto, geralmente, beige que, em diferentes tonalidades, jogava com o lettering preto; a entrada da cor e o uso da gravura ou da fotografia constituía caso raro.

Nesse tempo, o conteúdo sobrepunha-se à forma do livro que parecia conter um certo segredo a desvendar. Para isso havia que, literalmente, abrir o livro, entendendo como tal a separação das folhas que, tendo sido impressas e encadernadas, não tinham passado pela lâmina da guilhotina. Essa operação cabia ao leitor que, lenta e cuidadosamente, cortava as folhas e lia as primeiras palavras do seu livro novo...
Duas épocas, duas formas de estar e viver. Hoje, maior liberdade de manusear uma obra, consultá-la, proceder quase à sua leitura completa, sem custos. Enquanto, no passado, abrir um livro significava tomar posse não só de um bem físico, mas também imaterial.
Como se percebe, falo de livros novos e não de usados!

domingo, 18 de maio de 2008

Calafão


Devo uma explicação a todos que me lêem, porque não esclareci o significado de calafão, uma palavra nova no meu vocabulário. Foi-me apresentada pela L. que, pelas suas raízes açorianas, conhece bem as gentes e a cultura do arquipélago.
Por via das coisas fui ao Ciberdúvidas e aqui fica o esclarecimento: Calafão é um regionalismo açoriano, refere aquele que retorna ao arquipélago. "A par de calafona (feminino de calafão), existe califonho e califórnio, o que indica que estes termos se devem relacionar com Califórnia. Calafão e calafona serão, afinal, variantes de adaptação portuguesa da pronúncia americana da Califórnia". (A. Tavares Louro.)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Novos privilegiados

Retrato de banqueiro francês, da família Périer que deu "vários políticos" à III República


Hoje, repesquei duas notícias. A posição da UE, ponderando a regulamentação dos elevados ordenados dos gestores. A segunda, respeita a um dirigente de uma ONG brasileira, Transparência, que, em Lisboa, acusou os políticos de serem os principais agentes de corrupção. Textualmente, disse: os partidos " entregam os cargos aos seus companheiros, verdadeiras quadrilhas que se instituem para assaltar os órgãos públicos". Referia-se ao Brasil, claro!!!
Sei que a História não se repete, mas há constantes que tornam aliciante o estudo da vida dos homens em sociedade. Por coincidência, recuei no último spot ao tempo da monarquia absoluta: Luís XIV, (o famoso Rei-Sol), e D. João V, Reis absolutos, mas não de poder ilimitado (como vulgarmente se pensa)!...
Apoiaram e apoiaram-se em privilegiados que chamaram à corte. Disciplinaram outros, votando-os à indiferença ou ao desterro. Numa palavra, souberam rodear-se de servidores fiéis e utilizar os meios possíveis para se fazer obedecer. Falo, por exemplo, do ouro.
Passou tempo, séculos: revoluções liberais, revoluções socialistas! Aperfeiçoaram-se as democracias! E outros privilegiados nasceram: banqueiros, burocratas, políticos....Em todos os regimes, um elemento comum: o dinheiro!

sábado, 10 de maio de 2008

Velhice

A morte é o nosso futuro. Se possível, também a velhice o é. (...)
Quando se é muito novo, a velhice é a dos outros. Quando se está a meio do caminho, a velhice começa a ser nossa e tudo ousamos para nos desviarmos dela e dos seus perigos. Quando se é velho, o espelho foge-nos da mão e não quer reflectir o que vê. Alguns velhos são loucos e sagazes. Por isso, a velhice é também a fonte onde se alimenta alguma da mais risível comédia humana.

Simone de Beauvoir, num sombrio livro sobre a Velhice, fala de um peso insuportável e afirma que ela é uma triste paródia da vida. Cícero, em De Senectude, aconselha, para a viver, uma mistura de apego e de renúncia à vida.La Rochefoucault lembra que os velhos gostam de dar bons conselhos para esconder que já não estão em estado de dar bons exemplos. E Vergílio Ferreira falava da velhice como do lugar de um grande confronto do homem consigo - com a memória, a liberdade, a finitude. (...)

Tenho amigos que para quem a velhice tem sido o encontro com um novo Eu: mais lento, mas mais sábio; mais prudente, mas mais atento. Outros, porém, enrolam os pés nela como numa passadeira rota: tropeçam, caem, partem o rosto. Como noutras situações, noutros riscos, noutros desafios,há quem saiba e quem não saiba fazer-lhe frente. (...)Sem os vermos, estamos cercados de idosos de sorriso triste e mãos frias a acusarem-nos. A sociedade do êxito e da competição trocou a experiência pela velocidade, a sabedoria pela pela informação, a visão pela imagem - divinizou a juventude e expulsou a velhice para os lares que cheiram a urina e a morte. (....)

Mas houve um mundo em que a velhice era a idade da atenção e da escuta. No nosso, é o tempo do esquecimento e do vazio. Agora, fazemos da longevidade a nossa mais apurada forma de crueldade. Quanto mais ela aumenta, maiores são a indiferença e o desprezo pelos que duram. Todos os dias sabemos histórias de crueldade e abandono que aterrorizam, mas calamos. Como sempre, há todas as explicações para elas. Diz-se: "A culpa é da vida. As pessoas têm de trabalhar e não podem tomar conta dos velhos." A culpa é da vida! E é de todos nós, que, diariamente, fazemos da vida o que ela é.

José Manuel dos Santos, Actual, Expresso, 10/05/08

Nota - Gostei tanto desta crónica que não resisti a fazer a transcrição de alguns excertos. Espero que o Autor não se importe!