segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Chegou o Outono

Anunciou-se de mau-humor o Outono. E eu que até gosto dos dias outonais, mistura de Sol envergonhado e de penumbra, fiquei desolada. Foram as inundações em Coimbra e depois em Albufeira com toda uma série de prejuízos. É assim a Natureza, imprevisível e inesperada, afrontando tudo e todos...

Desta vez nem a presença de D. Afonso Henriques em Santa Cruz escapou à fúria das águas, impedindo a Missa vespertina deste domingo. Curioso é, no entanto, observar a reacção das pessoas aos prejuízos e em Coimbra recebi mais uma lição de vida. O senhor Fernando Pereira, proprietário de uma loja fronteira a Santa Cruz, ainda esta manhã limpava a lama e reparava os danos, mas sem revolta ou pedido de indemnização. É assim o negócio "com lucros e prejuízos" dizia ele, preparando-se para mais um dia de venda de plantas e flores. Outro lojista, dono de uma casa de pronto a vestir para noivas, contava que tinha sido avisado acerca da tromba de água, porque existe uma grande solidariedade entre vizinhos. E também ele, conformado com os estragos, preparava-se para avaliar os prejuízos.

Quando o mundo destila ódio e revolta, há sempre alguém que recomeça a vida e faz a sua parte. Que bom seria se toda a gente fosse assim...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O valor da amizade

Anikibóbó, filme de Manuel de Oliveira


A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade. Naturalmente, nesses casos não se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa imagina que a amizade é um serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser homem, sem esse ideal?


Sándor Márai, As velas ardem até ao fim

Sándor Márai



Foi este Verão, em Agosto, que li As velas ardem até ao fim, um livro fascinante. História de amor e da amizade que ocorre num ambiente aristocrático da velha Hungria: espaço e tempo propício à análise da complexidade da natureza humana.
O carácter intimista transforma este romance numa obra universal: reflexão profunda acerca do amor, da amizade e da traição, em resumo, das motivações e vicissitudes que determinam as relações humanas. E acima de tudo, a atitude nostálgica de um velho que permanece agarrado aos valores que a família lhe inculcou.

Seguindo o percurso do autor, que viveu entre 1900-1989, compreendi melhor a composição da personagem central da obra, Henrik. Cansado e desiludido, Sándro Márai sentia-se também velho e desenraizado. Húngaro pelas origens familiares e por nascimento, viu a sua terra sofrer as vicissitudes políticas do século: integrada na Checoslováquia (e hoje parte da Eslováquia). Enfim, incompreendido...
Obra que recomendo vivamente e à qual hei-de voltar, talvez, com a transcrição de alguns excertos.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

E a notícia acontece...



A notícia acontece sempre em função do homem, dos seus interesses, gostos e necessidades. Como se sabe, a notícia é escolha. Ora, reportando fenómenos da Natureza, cujo controlo escapa ao domínio humano, a notícia é uma opção do jornalista que potencia aquilo que o homem produz, cria ou pensa. Umas vezes, faz-se notícia em sentido positivo, relato de de coisas agradáveis e felizes, embora prevaleça o tipo de acontecimentos nefastos: mortes, desgraças, guerras...

Tais considerações levam-nos à reflexão acerca daquilo que, de facto, interessa ao jornalista e, naturalmente, ao receptor da sua mensagem. Mas até que ponto coincidem os pontos de vista do emissor com os do público a quem se dirige? Cada um julgará por si...

Tema que já originou muita reflexão e debate. E assim há-de continuar. Pela minha parte, limito-me à transcrição de um texto que releva o assunto, fazendo o elenco de todo o género de notícias...


"O que é notícia?", lê-se numa parede do último andar do Newsmuseum, o mais recente museu de Washington, inaugurado em Abril. Há uma hipótese de resposta logo ao lado. É uma espécie de índice para a exposição que se desenrola conforme se descem o seis andares. Treze pares de palavras numa parede côncava elencam a matéria de que é feita a história das notícias. Nascimento/morte, guerra/paz, vitória/derrota, rumor/facto, amor/ódio, crime/castigo, destruição/invenção, sabedoria/ignorância, verdade/mentira, descoberta/perda, riqueza/pobreza, lealdade/traição, trabalho/diversão. Como quem diz: tudo pode ser notícia.

Filipe Santos Costa, Aqui a notícia é o jornalismo in Actual, Expresso, 6 de Setembro 2008.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

S. Martinho do Porto



Para fugir da confusão da cidade nada melhor que um lugar sossegado e refrescante. Ao longo da costa portuguesa ainda é possível encontrar alguns desses "paraísos" que, aliando o ambiente de paz e tranquilidade, também oferecem os habituais programas festivos.

Optei por um desses lugares: S. Martinho do Porto. E depois, S. Martinho é uma terra pequena e antiga que a prodigalidade divina marcou pela baía calma em forma de concha.

As gerações e gerações que fizeram desta terra a sua estância de férias não resistiram aos encantos de uma praia que, durante muito tempo, foi considerada uma das mais elitistas. Mas S. Martinho evoluiu e hoje transformou-se num espaço democrático, onde parece existir espaço para todos.
Aqui, o dia de praia começa tarde, já que as manhãs de neblina e o apito do farol convidam a fazer mais umas horazitas de sono. Isso não impede as longas caminhadas pelo passadiço até Salir... E agora que acabaram as obras na Marginal é um gosto caminhar ou fazer um passeio pela ciclovia.
Este ano havia uma nova atracção: um comboio que, atravessando a vila de lés a lés, serve os moradores e faculta um belo passeio. Tendo ainda presente a lembrança do velho comboio da Costa da Caparica, apressei-me a experimentar. E gostei muito dessa tarde de Sol, avistando do morro a Praia do Salgado e a Nazaré. Para Sul já não pude desfrutar da mesma nitidez, mas mesmo assim fiquei com um vislumbre da Berlenga...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Maria Callas



Regressei ao passado com a Exposição no Museu de Electricidade, Maria Callas.
A Cantora será eternamente lembrada pelas magníficas interpretações, mas dela resta também o drama pessoal que viveu. Tendo sido admirada, aplaudida, Maria nunca foi verdadeiramente amada...

Março de 1958, dessa passagem de Maria Callas por Lisboa recordo as imagens da Flama e do Século Ilustrado e os relatos dos que a ouviram no S. Carlos. Aqui fica a lembrança "dessa Violetta", embora não tivesse sido a personagem com quem mais se identificava.

"De certo modo, a Norma parece-se comigo. Aparenta ser muito forte, muito feroz. Na verdade não é, mesmo quando ruge como um leão"

Férias, partir ou ficar?

Azul, amarelo, calor: é assim o Verão. E com ele chega a vontade de partir, especialmente no mês de Agosto. Em demanda do merecido descanso quase toda a gente entra nesse movimento migratório que cruza as estradas do país e atravessa mesmo a fronteira.
Dizem os media que, este ano, os portugueses preferiram as "férias cá dentro". E muito bem, porque não falta oferta para todos os gostos. A beira-mar continua a atrair, embora o campo ganhe (e bem) cada vez mais adeptos. Já outros, impedidos de sair, deixam-se ficar no local de residência e não se julgue que, por esse motivo, sejam menos felizes...
Alguém conhece verdadeiramente a localidade onde vive? Em cada cidade, vila ou aldeia existe uma riqueza em património natural e construído que merece ser apreciado. Se faltam monumentos ou museus, procure-se um sítio aprazível para fugir ao calor rigoroso dos dias quentes de Verão: um jardim, um rio, uma barragem ou uma piscina refrescam o corpo e facilitam o convívio entre residentes e visitantes. E verdade seja dita, muito têm feito os autarcas para agradar aos seus munícipes e cativar forasteiros. Alindam-se parques, equipam-se espaços desportivos e até, onde a Natureza permite, "nascem" praias fluviais...

E depois, as festas. Anunciam-se em todo o lado: procissões, fogo de artifício, arraiais, feiras e mostras de artesanato, festivais de folclore ou de cortejos de cariz económico, touradas... Festa, sempre festa, mescla de religioso e profano, simples pretexto de convívio entre "vizinhos e seus hóspedes". Fazendo gala em bem receber, as nossas gentes repetem os mesmos costumes populares, contam os mesmos ditos e lendas, realçam as manifestações artísticas e económicas da terra onde nasceram. É o "apego arreigado" às origens que assim se manifesta e há-de perdurar!
Por tudo isso, as festas tradicionais não podem acabar e sempre haverá um ou mais voluntários para gerir a boa execução de tais actos. Administradores que, em muitas localidades são chamados "juízes", assumindo-se como verdadeiros mecenas, granjeiam respeito e veneração.
Os emigrantes contam-se entre os mais entusiastas pelas festas populares, que significam o regresso nostálgico à pátria, e muitos oferecem-se mesmo como patrocinadores da organização de tais eventos. Talvez isso represente o cumprimento de uma promessa, mas também não deixa de ser mais uma manifestação pública de sucesso...