quarta-feira, 11 de junho de 2008

Partir


Há muitas formas de partir... em todas elas, está sempre a ausência de alguém. E para todos os casos haverá remédio, diz o povo, excepto para a morte.
Separação definitiva, a da morte, condenados que somos a viver só da imagem do nosso familiar, do nosso amigo ou daquela figura pública que admirámos... Morte inesperada ou morte anunciada por uma doença prolongada! Em qualquer situação, sempre chocante.

No âmbito das relações pessoais, tal como na Natureza, a morte toca-nos por ciclos. Aconteceu assim neste fim de semana. Começou com a notícia da morte de um amigo meu, cuja doença desconhecia. Por isso, fiquei extremamente chocada. Foi um cancro no pâncreas que, em menos de três meses, o levou. Até lá, sofreu em silência e, só três dias antes, revelou o seu estado à mulher. Resistiu de forma heróica, ao ponto de se ter deslocado, pelo seu pé, ao laboratório de análises no dia da sua morte.
Depois, foi a M. que partiu, vítima de Alzheimer. Acabou subitamente, ao jantar, sentada à mesa. Felizmente, foi poupada a sofrimentos maiores.
Hoje, outra notícia triste. A morte de uma antiga professora que, desde há muito, aguardava este dia. Sofreu muito, há meses que não falava, mal se alimentando. Mais um caso de cancro.

E agora, quando procurava as notícias do dia, deparei com a situação de uma figura pública do meu imaginário de juventude, Paul Newman. Também sofre de cancro, desconhecendo-se qual a espécie. Luta contra a doença há dezoito meses. Conta 83 anos, oxalá que sofra pouco.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Morrer de Alzheimer


A doença de Alzheimer é um dos meus grandes medos. Doença degenerativa que, lenta e progressivamente, vai destruindo as células do cérebro, os neurónios que não têm a capacidade regenerativa, como noutros casos. Uma vez destruídos, não há substituição. Numa palavra, é uma doença incurável.
Manifesta-se pela perda de memória de factos recentes, dificudade na execução de actividades domésticas e manuais, desorientação e, em geral, na dificuldade de fazer cálculos. Verifica-se uma progressiva perda de capacidade de raciocínio e da fala, às quais se junta uma série de alterações de comportamento. Apatia, alucinações, delírios e crises de agitação repetem-se. E como consequência, o doente desenvolve uma relação de conflitualidade com os familiares e prestadores de cuidados médicos.
Não existem certezas quanto às causas da doença. Há quem fale numa tendência hereditária, mas ainda sem provas concludentes.
A doença evolui por surtos. A perda de capacidade cognitiva surge associada à perda de peso que, levando a um estado de debilidade extrema, diminui o sistema imunitário. E muitas vezes, o paciente acaba por morrer de uma qualquer patologia infecciosa.
Muito tem evoluído a medicina e hoje já se prescrevem medicamentos para retardar a doença. Fala-se também nos efeitos preventivos da aspirina e sugere-se ainda uma alimentação adequada. Por enquanto, mais hipóteses do que certezas.
Muitos associam a depressão à doença de Alzheimer. Depressão vivida antes dos 60 anos e, mais penalizadora ainda, se acontece depois dos 65 anos. E eu que, não tenho qualquer base científica, considero este factor determinante. Assim é em todos os casos de Alzheimer que conheço.
Ontem foi a enterrar uma amiga minha vítima de Alzheimer. Conheci-a no dia 1 de Outubro de 1972, criámos laços de grande amizade pessoal e um óptimo relacionamento a nível de trabalho. Muito inteligente e perspicaz, foi uma profissional brilhante que deixa saudades em todos os que com ela privaram. Até há pouco mais de ano e meio, nunca soubemos interpretar os sinais da doença. Então, era tarde demais! Hei-de recordar a sua imagem no passado e nunca a pessoa dos últimos tempos. Visitei-a, pela última vez, no dia 22 de Maio. Muito magra, parecia, no entanto, bastante lúcida. Vou sentir muito a sua falta!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Araucária



No dia do dia ambiente, sobram muitos conselhos para preservar a Terra. O lema dos três Rs. e tantas outras práticas para salvaguardar os recursos da Natureza. Por mim, fico-me pela evocação da araucária.
A Natureza através de uma árvore de grande porte que todos os anos sobe mais "um andar", podendo atingir muitas dezenas de metros. Mas esta não é uma qualquer espécie. É a araucária que avisto da minha janela. Despontou, entre o casario, e cresce, cresce muito. Conheço-a há alguns anos e, por curiosidade, procurei o local onde foi plantada...por mãos cuidadosas.
E, hoje, dei-me conta que a sua presença funciona como observador atento. Quantas gerações coexistem na sua vizinhança e quantas outras hão-de passar no futuro! E essa guardiã do tempo que passa, a araucária que, cada ano, sobe mais e mais, há-de um dia também assistir à minha partida!
Testemunhas da História, as árvores resistem mais do que o homem, algumas vivem centenas de anos e muitas chegam a contar milénios. A propósito, lembro-me das oliveiras que vi em Jerusalém. De tronco carcomido, ramaria escassa , mas que, por certo, encerram a vivência de muitos segredos... no chamado "Jardim das Oliveiras"!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sabedoria popular


Gosto de poesia popular. Quase sempre, uma expressão irónica e divertida de uma verdade que os mais sábios não souberam ou não quiseram assumir.
Da memória desses camponeses recolhi algumas quadras que, outrora, foram cantadas no trabalho ou em dias de festa.

Não te rias de quem chora
Que é mal que Deus ordena
Pode a roda desandar
E tu cais na mesma pena!

Lá no céu vai uma nuvem
Todos dizem: bem a vi!
Todos falam e murmuram
Ninguém olha para si!

Quem me ouvir cantar
Julgará que a vida me corre
Eu sou como o passarinho
Também canta quando morre!



terça-feira, 3 de junho de 2008

Yves Saint-Laurent


Ontem, a notícia correu mundo: a morte de Yves Saint-Laurent. A França, na pessoa do seu Presidente da República, prestou homenagem a um dos seus maiores costureiros. E os meios de comunicação dedicaram-lhe também as suas emissões. Na TV5, um longo documentário no atelier de Yves: entre os seus colaboradores num misto de vida pública e privada, onde não faltava um cãozinho que, às tantas, dormia uma soneca.
Atelier num ambiente quase religioso. Rolos de tecidos, figurinos e colaboradores do Costureiro. Eles e elas quase não falam, em sussurro, giram em torno de uma elegante modelo que prova um vestido de noite, ou um casaco. Sentado à secretária, entre croquis, Yves fala pouco e fuma muito, bebe água e observa. Sempre atento, opina e prossegue o acto de criação, agora no corpo da modelo. É nesse campo de experiência que ajeitam tecidos, combinam cores, ensaiam drapeados, acertam decotes, sobem bainhas. Predomínio de cores suaves, estampados matizados, bordados em tom pérola e, sempre, um acentuado gosto pelo preto. Assim acontece nos tailleurs com originais blusas brancas.
E vai nascendo a obra... Feita em damascos, cetins, musselinas, lamés e o Mestre sorri com agrado, repetindo voilá, extraordinaire, c'est beau, ravissante e a linda modelo agradece sempre com um merci, monsieur.
Em todos os trabalhos, sobressai a elegância e feminilidade. Característica extensiva aos complementos: capelines, écharpes, laços, cintos, carteiras...Yves revolucionou a moda, sem retirar simplicidade e elegância. Ditou o uso das calças à mulher, e soube dar um toque de classe ao smoking preto para as grandes ocasiões!
Clientes famosas, princesas e artistas de cinema, foram clientes de Yves Saint-Laurent. Pela sua casa passou a fina flor da elegância dos últimos quarenta anos e, por isso, tornava-se pertinente interrogá-lo acerca do ideal de beleza feminina. E a resposta foi inesperada: um casaco preto, uma saia preta e, a seu lado, o homem da sua vida!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

"Futebol fora da realidade..."


Primeira observação, gosto de futebol. No entanto. o espaço noticioso dado à Selecção parece desmedido e, talvez, mesmo contraproducente para o resultado que se deseja! Ainda nem começou o Campeonato e a histeria futebolística avança a todo o vapor, esquecendo outros problemas...
Delicio-me com os dribles do mais famoso futebolista da actualidade. Adoro vê-lo jogar e tenho uma enorme simpatia por Cristiano Ronaldo que, há dias, confessava não saber quanto dinheiro tinha!...

Ora, a propósito deste imenso e inebriante poder económico do futebol, Luís de Freitas Lobo, jornalista desportivo, escrevia, no Expresso de sábado, uma crónica que intitulou: Mundos Paralelos. Transcrevo aqui.

Um vendedor de flores, um barbeiro, uma mulher pequena, um homem gordo, um jogador de basquetebol, um cantor de fado. Gosto de olhar o mundo como uma babilónia de personagens. Todas estas podem cruzar-se connosco a qualquer hora do dia. O futebol também é assim na sua democraticidade atlética. Jogam todos. Altos, baixos, lentos, magros ou um pouco gorditos. Mas as babilónias não são perfeitas. Os títulos das primeiras páginas de jornais explicam bem isso. E assustam. Um exemplo da semana: O Real Madrid oferece 82 mil euros por dia a Cristiano Ronaldo. Um título que coexiste ao lado de outro. A mãe de Tânia, a criança atropelada no Porto, vive com 550 euros por mês e não tem dinheiro para comprar os iogurtes indispensáveis na alimentação e evitar nova nova operação da menina. São dois "mundos" que coexistem no mesmo mundo. Pacificamente.
É perturbador. É como cair na "twilight zone". Claro que nem o futebol, nem Ronaldo muito menos, têm culpa desta babilónia absurda em que vivemos. Este futebol vive fora da realidade. Por isso, este simples contacto com ele causa alucinação. Como as cartas humanas que se movem loucamente em "Alice no País das Maravilhas" e o coelho que a quer levar para um poço. Não há forma de fugir deste choque de mundos. Esqueçam a racionalidade. Aqui é apenas o caos.

domingo, 1 de junho de 2008

Dia da Criança

Tantos são os dias de comemoração que, alguns tendem a cair no esquecimento. Não este, o Dia mundial da Criança!
Lá longe, na China, o dia que deveria ser assinalado com alegria, reflectiu-se nas palavras sentidas de muitas crianças, em luto pelas vítimas do terramoto. Estima-se em 6000 o número das crianças desaparecidas . É por elas que choram os pais que, tendo obedecido à "política do filho único", dificilmente poderão esquecer a perda dos seus meninos...

Em Portugal, apesar da crise, ainda estamos livres destas calamidades. Remetendo-me à efeméride, registo outros dias 1 de de Junho que comemorava com o Tiago, o meu primo mais novo, nascido em 1974. Às vezes, oferecia-lhe um livrinho, aproveitando a coincidência da Feira do Livro. E durante muitos anos, percorremos juntos o Parque Eduardo VII, olhando as novidades, aqui e aqui, parando a folhear este ou outro livro...
Hoje, que são outros os nossos timings, perdemos a companhia, mas não o hábito de trocar impressões sobre as últimas leituras. E, uma vez que que o Tiago já é pai , não tarda muito a vê-lo no Parque Eduardo VII a mostrar livros, muitos livros à sua Matilde. E, decerto, ela também vai gostar muito, tanto como o pai que, não sabendo ainda ler, passava as folhas dos albuns do Tio Patinhas e ria, ria sempre!...


Nota - A imagem escolhida reporta-se ao início da Revolução Industrial, ao tempo em que se desconhecia a personalidade da criança e os seus direitos...