segunda-feira, 30 de março de 2009

Maurice Jarre


Dr. Jivago, o livro de Boris Pasternack adaptado ao cinema, permanece na nossa memória: a História e a ficção em belas imagens fotográficas e sonoras.

Maurice Jarre, o compositor da música deste filme (e de muitos outros, como Lawrence da Arábia), faleceu hoje aos 84 anos. E não existe melhor meio de lhe prestar homenagear do que a lembrança da sua música!...

domingo, 29 de março de 2009

Desastre da Ponte das Barcas


Dia 29 de Março de 1809. Desastre da Ponte das Barcas no Porto, duzentos anos de um acontecimento trágico.

Cerca de quatro mil pessoas que, fugindo dos franceses que invadiam a cidade, acabaram por morrer afogadas no Douro. A dimensão da tragédia foi tal que alguns franceses, tocados pela aflição das pessoas em pânico, tentaram auxiliar os náufragos e resgatar os mortos...

E para que a memória não esqueça o passado há dois séculos, registe-se a inauguração de uma peça de Souto Moura: duas barras de aço que abraçam as duas margens do Rio, onde outrora se prendiam amarras de uma ponte...

Segredo


Porque é Primavera e os passarinhos fazem o ninho...fica um segredo de Miguel Torga!

Segredo

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...
Miguel Torga, in "Diário VIII"

sábado, 28 de março de 2009

Anunciação


O pretexto advém da festa da Anunciação que o calendário litúrgico assinalou no dia 25.

Escolhi a mais famosa representação da Anunciação, a de Leonardo de Vinci. Executada a óleo sobre madeira, cerca de 1472-76, esta obra marca a primeira fase da carreira do mais criativo e original artista do Renascimento. Embora reconhecendo algumas falhas técnicas, os entendidos não podem negar a harmonia e beleza da composição. Vale a pena demorar o olhar e identificar o carácter do génio que foi De Vinci.

Exposta na Galeria dos Ofícios em Florença, a Anunciação atrai uma multidão de visitantes que nunca se cansa de observar e comentar ... em sussurro ou em tom mais audível.
Bem podia dizer-se uma "babel linguística" em torno de uma obra universal!

sexta-feira, 27 de março de 2009

Nazaré


Haverá algum português que nunca tenha ouvido falar da Nazaré?
Atrevo-me a dizer que toda a gente "conhece" alguma coisa desta terra piscatória. E, se não, lembre-se o Santuário a Nossa Senhora da Nazaré, cujo imaginário remonta ao Rei-fundador, e o folclore: valores suficientes para inscrever esta terra na lista de lugares a visitar.

Vila piscatória que o tempo transformou em cidade. Progresso que não pode esvaziar o passado ainda persistente nas manifestações populares, na literatura e nas artes.

Raúl Brandão, escritor que alimenta o gosto por lugares e tipos humanos que a tradição manda respeitar, deve ser lido e apreciado. No dizer de Vitorino Nemésio livros como Os Pescadores e As ilhas Desconhecidas "constituem cadernos de viagem e documentários do habitat português em que as notas objectivas, os pormentores de informação, o estilo de vida das populações especializadas no trabalho tornam positivo e convincente o fresco poético e dramático que se sente ser a preocupação dominante do escritor."

Ler Os Pescadores e visitar a Nazaré, um programa para um fim de semana. http://www.vidaslusofonas.pt/raulbrandao.htm

A riqueza etnográfica e musical inspirou artistas de todo o género. Nazaré, composição musical de Frederico de Freitas e coreografia de Francis Graça, interpretada pelo grupo Verde Gaio.
Criado com o patrocínio de António Ferro, Verde Gaio assumia-se como "bailado moderno" à maneira dos Ballets Russes de S. Diaghilev, revelar-se-ia uma espécie de atelier notável a nível técnico e de expressão etnográfica. Aí pontificaram também excelentes pintores e designers. Por tudo isso, apetecia-me rever o bailado Nazaré . E se, por acaso, a RTP me ouvisse?!..

Assim se prova como basta um nome, uma palavra para entrar em divagação. Uma viagem no espaço e no tempo que contem tantas vias e caminhos!

Grande é o Tejo...

Mar, "memória das naus"

Na sequência da mensagem anterior, note-se como Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) viu o Tejo, comparando-o com o rio da sua aldeia...

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia.

E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos

Sino da minha Aldeia

Escaroupim, aldeia piscatória (margem esquerda do Tejo).

No Dia do Teatro registo uma voz que, apesar do tempo, continua viva na nossa memória. João Villaret declama Fernando Pessoa: actor e autor numa simbiose perfeita!

A imagem escolhida transporta-nos até uma aldeia, onde o sino sobressai por entre o casario branco. E ainda o espelho de água a querer impôr-se às palavras ditas e lidas, esse outro símbolo da terra-natal: o "rio da nossa aldeia", um grande rio ou um escasso fio de água...


Oh! Sino da minha Aldeia

Oh! sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.


Fernando Pessoa